Martinho Lutero: Um Destino; Lucien Febvre
Uma obra sobre a história do século XVI e da Reforma, que faz reviver Lutero no seu papel heróico de profeta inspirado, o presente livro de Lucien Febvre de há muito merecia voltar às mãos do leitor português. Nele, o grande historiador francês co-fundador da chamada “Escola dos Annales”, para além de nos fazer assistir a um momento capital da história do Ocidente, coloca o problema das relações entre o indivíduo e a coletividade, entre a iniciativa pessoal e a necessidade social, que estiveram na base das formulações da "Nova História".
Lutero, seu maior mérito: sua simplicidade. Insurgiu-se contra os abusos. Perdeu o controle do movimento a que dera início, devido a confusão provocado pelos fanáticos e para salvar a sua reputação teve que se contradizer.
Esta obra começa observando a história de Martinho Lutero além do pano de fundo no contexto dos Anabatistas e dos Camponeses. Inicia com a carreira de Martinho Lutero na igreja até sua ascensão e sua “queda”. Pode-se concluir que Lutero foi “real e humano”. Embora o texto seja de difícil leitura e de difícil compreensão, mesmo tendo um conteúdo muito rico de informações sigilosas. Relata que Martinho Lutero era simples e não se perdia em sutilezas; Lutero inclusive insurgiu-se contra os abusos. É relatado também que Lutero foi seqüestrado em Wartburg, onde perdeu o controle do movimento que criara. Vemos também que Lutero ao deparar com aqueles que o contradiziam, mudava imediatamente de personalidade, e se tornava uma pessoa bruta. Tinha uma doutrina vulgar, era contra a ciência geradora de desigualdades, fazia apologia do trabalho manual e incitava para destruir as imagens.
O livro relata que Lutero saiu do isolamento em Wartburg e foi até Vitemberga ansioso por informação, ficando por quase três meses, quando retorna para o seu abrigo em 01 de março de 1521, próximo da dieta de Nuremberga. Na dieta de Nuremberga, certamente iria ser formuladas diversas ameaças a ele e ao seu protetor, o Príncipe Frederico. Mas quando, o imperador, promulgou a dieta, Lutero já se encontrava a salvo no castelo de Wartburgo, porque Frederico, príncipe, inteirado de que o imperador forçaria a dieta a condenar Lutero, colocou-o salvo. Mandando um grupo de homens armados, seqüestrá-lo e levá-lo até Wartburgo. Devido às suas próprias instruções, nem o próprio Frederico sabia onde o tinham escondido. Muitos o deram por morto, e corriam rumores de que fora morto por ordem do papa e do imperador. Lutero preferiu fazer o sacrifício oferecendo-se ao martírio, como milhões de homens já haviam feitos, aqueles foram apenas discípulos de um ideal, mas não foram construtores deste ideal.
Lutero era um homem tão temente a Deus que tinha vacilado em dar os passos concretos que seguiam sua doutrina. Em 1520, a cidade alemã de zwickau já tinha tentado estabelecer um reino de Cristo, um reino sem rei, sem magistrado, sem autoridade espiritual, sem lei sem igreja, nem culto, onde os súditos fossem livres e dependessem apenas das Escrituras. Isto causou reação dos magistrados local e em dezembro de 1521, alguns líderes entravam em Vitemberga visando um refúgio seguro, três semanas após Lutero ter se refugiado em Wartburg. Entre estes líderes, três apóstolos se destacaram e desde então passaram a desdenhar Lutero quanto a sua doutrina chamada por eles de vulgar, conquistando desta forma o favor dos vitembergueses. A ação dos apóstolos fez com que as igrejas fossem saqueadas abominavelmente, e essa inquietação só aumentava nas pessoas, com isso voltaram para Lutero, que nesse caos era capaz de ver claro, de colocar as coisas e as pessoas no lugar, com a lucidez de profeta autêntico, Lutero não hesitou, porque para ele a sua obrigação era estar cuidando do rebanho cristão a seu encargo. Aqueles profetas não pertenciam a Deus e sim ao diabo. Era preciso pô-los a nu e desmascará-los. Quando chegou a Vitemberga, Lutero subiu ao púlpito e durante oito dias pregou com simplicidade ao povo que puderam em fim saciar o seu apetite de entusiasmo.
Lutero foi um idealista e a sua força animava a todos e se revelava como uma única força de conquista e de dominação. Para Lutero, sua fé lhe ditava a sua conduta. O seu idealismo que animava a todos se revelava como uma única força de conquista e de dominação. Martinho Lutero era um pequeno burguês, e tinha ideias curtas. Ignorava tudo do mundo que o rodeava, problemas políticos, econômicos, sociais, etc. Ele era um arauto da Palavra. Proclamava: “a confissão é boa quando é livre e não importa... a missa não é nem um sacrifício nem uma boa obra; representa, no entanto um testemunho da religião em benefício de Deus.”
Mas havia um forte grupo de príncipes que ameaçavam Lutero, acossavam os seus seguidores e perseguiam os seus escritos. Esses homens, por apego as tradições e com medo das perturbações que estava preste a eclodir, faziam marchas atrás de marchas. Outro grupo formado pelos extremistas acusava Lutero de não ir até o fim de seu pensamento e de não realizar com eles sobre a terra o reino de Cristo. Entre os dois grupos, estava o pequeno exército de fiéis de Lutero, confiantes, porém inquietos, porque esperava de Lutero a construção de uma igreja completamente nova, límpida e moderna. Mas como Lutero não se preocupava com o reino deste mundo, a sua fé unia-se ao sangue de Cristo, Ele não se preocupava em construir uma igreja luterana definida nos seus dogmas, ordenada nos seus ritos e nas suas cerimônias.
Os Anabatistas, individualistas místicos, intransigentes, desejosos de sua alma sem a necessidade de igreja, em busca de um reino de Deus, reunindo apenas os eleitos, inspirados pelo Espírito e apreciando uma perfeita igualdade, as alegrias de um comunismo sem restrições. Todos pareciam dizer a Lutero, olha. És bem tu. Tu nos teus dias de audácia. Como nos censurarás? O que dizemos, disseste-o antes de nós. Diziam ainda, vamos até o fim. Argumentavam que Lutero ficou a beira do caminho vendo-os passarem. Argumentação ilusória, pois Lutero rapidamente pode observar o seeu êxito.
Em agosto de 1522, Carlstadt, seu antigo companheiro, foi ao encontro de Lutero. Este encontro causou a Lutero o efeito mais violento, isto porque o povo gritava “quebra o pescoço antes de saíres daqui!”. A cena foi estranha, onde os dois teólogos lançaram-se um contra o outro. Enquanto Carlstadt atento e amargo e Lutero aparentando uma calma irônica. Em dezembro de 1524 Lutero, finalmente declara que o grande erro de Carlstadt, foi fazer o povo pensar que a essência do cristianismo é a destruição de imagens, a supressão do sacramento e a oposição ao batismo.
Lutero proclamava: “a confissão é boa quando é livre e não importa... a missa não é nem um sacrifício nem uma boa obra; representa, no entanto um testemunho da religião em benefício de Deus.” Ele era obstinado em trazer o seu hábito de Agostinho. Para Lutero “Deus é um poderoso monarca”. Ele persistia em lançar frente a frente à vida espiritual e a vida material. Declarava que a fé em Cristo era o tesouro incomparável, pois nela continha toda a salvação do homem. Dizia que o Senhor é quem conduz tudo e esconde aos olhos dos príncipes as ameaças e os perigos iminentes. No plano espiritual existem apenas cristãos na presença de Deus. No reino terrestre não é a caridade, a misericórdia, a graça que conduzem todas as coisas, mas a cólera, a justiça limitada, e o direito humano fundado sobre a razão. Continuava a definir o ser humano como a junção de um cristão e de um mundano justapostos; o mundano, subjugado às dominações, submetido aos príncipes, obedecendo às leis; os cristãos isentos de dominações, livre, verdadeiramente sacerdote e rei.
Para alguns camponeses, Lutero era naturalmente o progenitor e autor da sedição. Já outros, saudavam Lutero como o defensor oficial de todos os oprimidos, o patrono nato de todos os revoltados, o adversário necessário de todas as tiranias. Lutero interveio e publicou a sua famosa exortação à paz a propósito dos doze artigos dos camponeses da Suábia, e também, contra o espírito de homicídio e de banditismo dos outros camponeses amotinados. Os camponeses argumentam: Não somos nem rebeldes, nem revoltosos, mas os porta-vozes do Evangelho. O que reclamamos, o Evangelho justifica-nos de exigir. Lutero diz que a única liberdade com que devemos preocupar é com a liberdade interior, e que o único direito que poderá reivindicar são os da espiritualidade. Em nenhum momento Lutero se elevou. Lutero evitava calar-se e permanecer, lastimoso e sereno acima do conflito. A revolta camponesa não tinha parado de se alargar. Mas os príncipes que haviam se organizado, derrotaram os camponeses com represálias ferozes, destruindo os campos, os estábulos, as plantações, surgindo o espectro horrível da fome.
Lutero declara no tratado da Autoridade Secular: o juiz deve ser duro, o poder implacável, a repressão levada a cabo sem falsa susceptibilidade até a crueldade, porque a misericórdia nada tem a ver com o mundo temporal. Em seu texto contra os Profetas Celestes, Lutero opina com uma perfeita nitidez: “o único meio de obrigar a fazer aquilo que deve fazer, é o de obrigar pela lei e pela espada à piedade exterior, como se dominam os animais ferozes pelas correntes e pela jaula”. Lutero escrevia para comprovar o direito do príncipe em expulsar Carlstadt: o país pertence aos príncipes de Saxe e não a Carlstadt; que aí é apenas um hóspede nada possui... O dono da casa não deve ter o direito e o poder de mandar embora um hóspede ou um criado? Lutero não era um homem para mudar de opinião perante os excessos dos camponeses.
O pensamento de Lutero quanto à salvação era: se Deus os não salva, é porque são criminosos. O menor mal que tenham podido cometer, é o de se calarem, de deixarem fazer, de consentirem. E declarava: É preferível a morte de todos os camponeses do que a dos príncipes e dos magistrados. E clamava ainda : “por todas essas razões, queridos senhores arrancai as cadeias, salvai-vos, ajudai-nos, tende piedade de nós, exterminai, matai, e aquele que tem o poder atue!”. E esclarece: “vivemos em tempos tão extraordinários que um príncipe pode merecer o céu vertendo sangue, muito mais facilmente que outros orando.
As conseqüências dessa atitude são de um Lutero angustiado, apesar de retomar uma vez mais a corrente dos seus pensamentos. Dizia ele, não temos que fugir. Vivamos no nosso tempo. Desempenhemos as funções que nos são confiadas. Submetemo-nos, pelo preço de um perpétuo constrangimento, às duras necessidades do mundo terrestre. É a perfeita libertação e o perdão, vencida a morte, a alma se coloca acima do bem e do mal. É a salvação.
A revolta dos camponeses abre as nuvens ilusórias e Lutero pode em fim ver, a sua foice nas mãos, o homem do povo miserável, inculto e grosseiro. Ilusão demasiada amarga. De um lado os heróis, aceitando com indiferença os constrangimentos exteriores, sem sentir necessidade de protestar ou de resistir. Do outro as massas submetidas ao sofrimento, aos rigores salutares. Contraste brutal de uma sociedade luterana desenvolvida na sua mediocridade com um moralismo farisaico e timorato, de uma fé visionária atribuído a alguns gênios heróicos a quem ninguém impõe isso. Era a história da Alemanha luterana que se desenhava assim. Nos sonhos, nas exortações de Lutero, em todo caso perturbado no fundo do seu coração e tanto mais fortemente gritando as suas certezas.
De fato, Lutero teve suas conquistas e suas decaídas, foi contra os abusos da Igreja Católica de um lado, e de outro tinha uma inquietação espiritual ao ponto de ser totalmente bruto. Martinho Lutero é um exemplo a seguir, pelo fato de ter feito a apologia da Bíblia e divulgar às pessoas perdidas. Sua coragem, seu amor à Palavra de Deus, sua compaixão para com as ovelhas ressaltam mais que seus problemas espirituais ou até mesmo interpretativos. Foi perseguido, foi seqüestrado, foi preso, e ainda assim evangelizou às pessoas ao seu redor. Um homem com falhas, mas que certamente fez a obra de Deus com amor e determinação. Os relatos de Lucien Febvre são claros dentro do contexto de difícil leitura, mas nada que ofusque a obra maior que Martinho Lutero teve que foi de se levantar e de mostrar a verdade para os que estavam cegos à palavra de Deus. É importante poder diferenciar quem realmente foi Martinho Lutero, para que não venhamos nos influenciar por sua história e descaracterizá-lo da obra que fez em nome do Senhor. Por Wagner Brito.
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