Teólogo luterano germânico nascido em Wiefelstede, Oldenburg, na Alemanha, que propôs uma interpretação do Novo Testamento da Bíblia apoiada em conceitos de uma filosofia existencialista.
Filho mais velho de um ministro da Igreja Luterana, nasceu num ambiente profundamente religioso. Freqüentou o liceu em Oldenburg, onde destacou-se nos estudos de religião, do grego e da história da literatura alemã.
Iniciou seus estudos teológicos na Universidade de Tubingen e no ano seguinte passou para a Universidade de Berlim e dois anos depois seguiu para Marburg, onde se licenciou em teologia (1910) com a tese O Estilo da Pregação de Paulo e a Diatribe Cínico. Iniciou sua carreira docente como professor especialista em o Novo Testamento (1916).
Foi professor por três décadas de estudos do Novo Testamento na Universidade de Marburg e nessa cidade tomou contato com Martin Heidegger e a filosofia existencialista, que influenciou seu pensamento posterior. Morreu em Marburg, então Alemanha Ocidental, vítima de várias doenças, entre as quais a cegueira.
Seu primeiro livro foi Jesus (1926) e em uma monografia altamente controversa Das Evangelium des Johannes (1941) criticou o evangelho de João e esta tornou-se sua mais famosa obra.
Bultmann e Heidegger
Bultmann encontrou na filosofia existencial de Heiddeger um instrumento que considerou adequado para falar das estruturas da existência humana.
Para Heidegger, o ser do homem é existência, (ex-sistere), um ser fora de si, um ser-além, que o homem busca em suas decisões e ações.
É um poder decidir-se, poder ser. Nesta busca, o homem pode orientar-se e decidir-se de acordo com duas modalidades, dois modos diferentes de compreender-se e decidir-se:
a) Existência Inautêntica: No nível do mundo, das coisas, fuga de si.
b) Existência Autêntica: No nível de si mesmo, da aceitação de si.
Existência autêntica na fé
Bultmann aplicou essas categorias à fé cristã:
a) Existência Inautêntica: É o pecado, viver por conta própria.
b) Existência Autêntica: É a fé, o abandono a Deus.
A existência autêntica de acordo com a analítica de Heidegger, ainda continuava a ser existência inautêntica para o NT, segundo Bultmann.
A existência autêntica não está centrada no poder do homem, mas em Deus e em sua Palavra. Ainda que a filosofia de Heidegger seja a melhor, para Bultmann, ela pode apenas analisar as estruturas formais da existência, mas não pode resolver o problema. Somente a Palavra de Deus anunciada e ouvida na fé pode realizar esta tarefa.
O Kerigma
Kerigma é uma palavra grega que vem significar a proclamação de um decreto autorizado. Para Bultmann, a Palavra de Deus é Kerigma: “É a palavra que tem poder, que é eficaz”.
Ela é anunciada e deve ser ouvida. É diretriz a ser seguida, ordem a ser observada. “ É a palavra que interpela, é apelo”!
O evento da salvação é o evento da palavra, isto é, a salvação chega ao homem na proclamação da palavra interpelante do kerigma e na sua acolhida dessa pela fé.
A Igreja é o lugar da palavra, pois é mediante a Igreja e os seus mensageiros que ela é pregada. Assim, a Igreja fundamenta-se no evento da salvação/evento da palavra!
O Evento Cristo
Mas qual é o conteúdo do kerigma? O evento da salvação é o evento Cristo, por isso, o conteúdo do kerigma é Cristo! Há dois modos de entender a iniciativa salvífica de Deus em Cristo:
a) Modo Objetivo: Ela se atualiza em acontecimento da história, que atingem o seu clímax na ressurreição de Cristo;
b) Modo Existencial: Ela se atualiza no concreto encontro com a Palavra de Deus e na renovação da existência. “É evento da salvação para mim”.
O conteúdo do kerigma, portanto, é a pregação da Igreja, o anúncio cristão, onde se confessa Jesus como o Cristo, e não Palavra de Jesus. Ele não diz respeito ao Jesus Histórico, mas à mensagem de que Jesus é o Cristo.
Bultmann crê que o Novo Testamento contém a Kerigma salvadora de Cristo. A desmitologização consiste em desnudar o mito do Novo Testamento e descobrir a Kerigma original.
Parte importante da interpretação de Bultmann é o seu modo de entender a história. Ao contrário do idioma português, a língua alemã fornecia a Bultmann duas palavras correspondentes a “história”.
A primeira, Historie, é usada em relação aos fatos da história.
A segunda, Geschichte, é o termo que subentende o significado ou relevância de um evento na história. Com o uso destas duas palavras, é possível diferenciar entre o significado do evento e um fato real.
Sendo assim, poderia-se dizer que Jesus morreu na Historie, mas sua real ressurreição se deu na Geschichte. Ou seja, ele não nega a existência do Jesus histórico, como fez a antiga teologia liberal alemã, mas nega a realidade dos eventos sobrenaturais que o envolveram.
A diferenciação entre Historie e Geschichte, retira a ação de Deus na história. Cristo é o Senhor, diria Bultmann, mas não o Senhor de nossa história e sim de uma história existencial e subjetiva.
Assim define George Eldon Ladd: “A realidade histórica deve ser compreendida em termos de uma imutável casualidade histórica, se Deus é compreendido como tendo a possibilidade de agir na história, a ação deve estar sempre oculta nos eventos históricos, sendo evidentes apenas aos olhos da fé”.
Embora a mensagem do cristianismo seja, sem dúvida alguma, existencial e contemporânea no sentido mais verídico, e exija a resposta subjetiva da fé. A fé que ele requer é a fé numa realidade objetiva.
Quando o cristianismo é privado de sua objetividade, cujo fundamento é a intervenção livre e sobrenatural de Deus na história, essa religião se torna uma idéia vaga, uma abstração, um idealismo sem raízes, e nunca será o vibrante cristianismo bíblico. Por Wagner Brito.
"Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo”. (1ª Co 3:11).
Nenhum comentário:
Postar um comentário